Compaixão & Meditação

naropa

Eu talvez deva contar-lhes a história de Naropa e de seu mestre Tilopa, o grande sábio indiano. Tilopa era um guru e passou doze anos com seu discípulo Naropa fazendo, praticamente, a mesma espécie de coisa que estivemos expondo aqui. “Se você for buscar sopa para mim naquela cozinha, eu lhe ensinarei; sou capaz de lhe ensinar”, dizia Tilopa. Então Naropa trazia a sopa, depois de levar uma surra terrível do pessoal da cozinha e dos donos da casa para obtê-la. Voltava ensanguentado mas feliz e, depois, Tilopa lhe dizia: “Quero outra tigela de sopa, vá buscá-la”. E Naropa ia buscar a sopa e retornava com ela semimorto. Fazia-o porque ambicionava os ensinamentos. E Tilopa lhe falava “Obrigado, vamos para um outro lugar”. Esse tipo de incidente ocorreu inúmeras vezes, até que o sentido de expectativa de Naropa atingiu o ponto culminante. Chegado esse momento, Tilopa tirou uma sandália do pé e bateu com ela no rosto de Naropa. Foi esse Abhisheka, o mai alto, e o mais profundo, o maior — poderíamos usar muitos outros adjetivos para descrevê-lo —, o maior Abhisheka. Uma pancada de sandália no rosto de um homem e, súbito, já não havia mais nada com que Naropa precisasse trabalhar.

Mas não devemos deixar-nos arrebatar por essa cena mística. Tudo se resume na via aberta. Examinamos e vivenciamos a auto-ilusão plenamente. Andamos carregando um fardo muito pesado, como a tartaruga carrega a sua carapaça. Tentamos continuamente fechar-nos nessa casca procurando, na realidade, chegar a “Algum lugar” agressiva e apressadamente. Precisamos abrir mão de toda a pressa e agressividade, de toda espécie de exigências. Ao se desenvolver alguma compaixão por nós mesmos, começa a via aberta.

Neste ponto, é necessário discutir o significado da compaixão, que é a chave da via aberta e sua atmosfera básica. A melhor e mais correta maneira de apresentar a idéia de compaixão é, em termos de clareza, a que contém um certo calor fundamental. Nessa fase, a nossa pratica da meditação é o ato de confiar em nós mesmos. À proporção que a nossa prática se destaca mais nas atividades da vida cotidiana, começamos a confiar em nós mesmos e a assumir uma atitude compassiva. A compaixão, nesse sentido, não é ter pena de alguém. É esse calor básico. Por mais espaço e claridade que haja, há também esse calor, uma agradável sensação de que coisas positivas estão acontecendo constantemente em nós. Seja o que for que façamos, a nossa ação não é considerada um entrave mecânico em termos de meditação forçada, mas a meditação torna-se uma coisa gostosa e espontânea. É o ato contínuo de travarmos amizade com nós mesmos.

ぁりがとう ございまず。

Através de Raphael

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